sábado, 16 de setembro de 2017

Convite para Artistas de Três Lagoas/MS


A produção do Festival Dança Três CONVIDA os artistas da dança de Três Lagoas para inscrever suas coreografias na programação da Mostra Local. Para a participação, é necessário acessar o regulamento e a ficha de inscrição apresentada no Anexo I, disponível para download no blog oficial do Festival DANÇA TRÊS e na página oficial do Facebook, preencher e encaminhar para o e-mail: mostraabertadancatres@gmail.com, até o dia 1º de outubro de 2017 . As regras são as mesmas da Mostra Aberta, TODAVIA, as cláusulas abaixo foram reformuladas para artistas de Três Lagoas:

2. DAS CONDIÇÕES

2.2. Será permitida a participação de crianças menores de 12 (doze) anos.

2.3. Cada grupo poderá inscrever no mínimo 01 (uma) e no máximo 02 (duas) coreografias, com tempo máximo de 05 minutos cada.

2.4. As inscrições locais poderão conter o número máximo de 20 (vinte) participantes por grupo ou cia, nas apresentações das coreografias.


Sendo assim, reiteramos que as cláusulas acima são exclusivas para inscrições dos grupos, cias, academias e artistas residentes da cidade Três Lagoas/MS, a qual não dependerão de custeios no alojamento, alimentação e transporte pelo Festival DANÇA TRÊS.

Dúvidas ou mais informações poderão ser esclarecidas via contato por e-mail com a organização do evento: contato.aradocultural@gmail.com.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Terceira Noite - parte 2


O Simbiose Street Dance (Três Lagoas) foi quem abriu a última noite de Mostra Aberta, com a coreografia “Bantô”, criada por Márcio Bruno, dirigida por Marcos Mattos. Bantô usa elementos de danças rituais, com danças urbanas, música eletrônica e todo um repertório de corpos sensuais - bastante difundido em mídias e redes sociais e, talvez, por isso, desperte tanta identificação na plateia, que vibrou junto com os dançarinos.
Grupo Simbiose em "Bantô".
A noite contou com outras apresentações de danças urbanas como a criação coletiva “Protótipo”, do Grupo Conexão Urbana. Interessante a maneira como incorporou jogos teatrais à composição coreográfica, que simulavam o controle "remoto" de uns sobre o movimento dos outros.
Grupo Conexão Urbana em "Protótipo".
 
O Grupo Expressão de Rua apresentou "Soul train", criado por Zeka de Souza.
Grupo Expressão de Rua em "Soul Train".
O que essas coreografias me fazem pensar é em como alargar o entendimento do que é "urbano", quais temáticas para além das tecnologias - como em protótipo e na musicalidade eletrônica, com batida maquínica - poderiam servir de ignições para as criações desses estudantes? Quais tensões, opressões, impressões, ações e resistências são performadas nas cidades hoje, em Mato Grosso do Sul, e que podem servir de material de observação, pesquisa e criação para quem se interessa pelas chamadas danças urbanas?

A artista convidada Fabgirl, de Brasília, apresentou o solo “Pense coisas boas”, dirigido por Sandra Kelly Lim. Essa coreografia faz parte do espetáculo “Breaking the dance: quebrando tabus de gênero na dança breaking".  A temática do trabalho dá indícios da relação entre criação artística e ação social, vinculada ao terceiro setor, ou seja, a arte como campo para promover discussões de relevância social.

O chapéu é um objeto cênico bastante utilizado em coreografias de sapateado e foi também usado em "Keep time", coreografada por Gabriela Fioravante, do Studio de Dança Mayara Martins. Acredito que um dos objetivos do experimento cênico, encenado por estudantes de dança, seja o de incorporar repertórios já existentes, diferente dos artistas-criadores cujo processo criativo envolve superar o que já existe ou lidar de uma maneira singular com o senso comum ou estereótipos, para dar corpo às suas obras. 
“Serenidade”, do Grupo Imagens, de Campo Grande, trouxe para a noite o encontro entre o balé e uma concepção que pode ser chamada de moderna da dança, por dar destaque ao tratamento das emoções, a uma “expressão” de sentimentos. “Balé”, porque dá para ver, claramente, que o treinamento dos corpos que se apresentavam em cena, é o dessa técnica clássica. 
Grupo Imagens em "Serenidade".
 Sugiro ao grupo e à coreógrafa, Priscilla Bogamil Quirino, o estudo de vídeos de coreografias e espetáculos de Oscar Araiz (1940), coreógrafo argentino que fez parceria ao longo de muitos anos com o Ballet da Cidade de São Paulo e outras companhias oficiais no Brasil, América do Sul e Europa. Vejam, por exemplo, este vídeo, disponível no youtube, da coreografia “O mar” (El mar), encenada pelo grupo de dança da Universidade Nacional de San Martin (Argentina). Reparem no uso espacial dos dançarinos, na qualidade dos movimentos e na maneira como incorpora as qualidades de movimento das águas do mar. Fica visível que os corpos dos dançarinos têm treinamento de balé, mas a composição extrapola os cânones clássicos, por isso a denominação “balé moderno”.


Os balés de repertório “La Fille mal Gardeé” (1786), encenado por uma estudante do Ballet Isadora Duncan, e “Pizzicato”, trecho do espetáculo “Sylvia” (1876), encenado pelo Ateliê da Dança, despertam a reflexão sobre como “reencenar” um “repertório” criado em outro contexto (importado de outro contexto) que, definitivamente, difere do brasileiro. 
Ballet Isadora Duncan com "La fille mal gardeé".
Além da assimilação dos passos, sugiro estudo do contexto de criação, da dramaturgia, ou seja, do sentido atribuído a cada gesto e a cada movimento, em seu momento de origem para ter a liberdade de atribuir um novo sentido, se for o caso. É importante que cada um desses detalhes faça parte do ato criativo e compositivo das coreografias, para desautomatizar a reprodução e dar ênfase à apresentação enquanto ato comunicativo, que promove experiências para além de comentários como “que bonito”, “que virtuoso”. Que aliem narrativa, gesto, movimento e técnica.
Ateliê da dança em "Pizzicato".
Discutimos reencenações de balés de repertório na roda de conversa realizada no sábado (27 set.), pela manhã. Nesse dia, Beatriz de Almeida deu o exemplo de como foi criado o “fueté”. Para além do virtuosismo – porque, afinal, chama mesmo a atenção tantos giros no mesmo lugar – ele foi encenado, pela primeira vez, segundo a professora, no espetáculo O Lago dos Cisnes (1877), para expressar a agressividade e impetuosidade do Cisne Negro (Odile). Aliar os passos ao sentido atribuído a ele, isso é dramaturgia.
 
Além dessas apresentações citadas, o Grupo Seishun apresentou "Yusetsu", que significa derretimento da neve, em japonês.
Grupo Seishun em "Derretimento da neve".

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Terceira Noite – parte 1


Esse é o primeiro texto da última noite, queridos participantes da Mostra Aberta e Profissional do Festival Dança Três.
Peço desculpas pelo intervalo de tempo entre uma publicação e outra, mas é por um bom motivo. Eu realmente passo dias digerindo o que assisti, lendo livros, consultando pesquisadores e artistas, para conseguir fazer o que realmente acredito: uma escrita “para” e “com” a dança de vocês. Porque acho que meu papel é o de iluminar possibilidades e leituras, mais do que julgar qualquer escolha ou estágio de experimentação ou estudo.
Bora lá!



Uma-duas mulheres, uma terceira, quarta, os olhos fixos através do espelho. Em mim, em ti, ela ajeita o vestido de outra mulher, dela própria. Mim é ti, os pronomes se confundem. Falta contornos e tudo é penetrável. Mas há tensão e ela trafega entre os pólos da lascívia ao amor, do desejo à repressão. Medo, culpa, dor, prazer.
“Mudança”, o novo espetáculo da Cia. do Mato, dirigido por Chico Neller, abriu a última noite do Festival Dança Três e foi, segundo o diretor, inspirado no poema de mesmo nome, escrito por Clarice Lsipector. É a mais recente grande criação de Neller depois de “Amor líquido” (2008) e “Cultura bovina?” (2007). “Mudança” deixa claro os ritornelos do artista, entorno do feminino, da individuação, da identidade, do prazer. Reincidências atualizadas em um modo de encenar cuidadoso e não menos intenso, no que tange ao tratamento dos sentimentos e das emoções. 
Talvez, lamber e se lambuzar de manga só faça oposição ao semear pétalas de rosas no chão (a primeira ação está situada do lado esquerdo do palco e a outra do lado direito) porque o ambiente no qual elas acontecem está impregnado de uma moral religiosa que dicotomiza corpo e espírito, gozo e espiritualidade, algo opressor para aqueles corpos que pulsam entre o ser e a impossibilidade de sê-lo.  E aí se dá o conflito.













Um universo profundo esse que Neller e seus dançarinos exploram, cartografam em gestos e deslocamentos (um presente para aqueles que não têm estômago para adentrar, sozinhos, nesse território desconhecido, e para os que já o penetraram). Essas questões remetem às da dança expressionista alemã, que chegou ao Brasil depois da Segunda Guerra Mundial, quando seguidores de Mary Wigman (1886-1973) e Kurt Joss (1901-1979) - precursores dessa vertente da dança cênica, junto com Rudolf Laban – nomes que foram levantados ao longo das rodas de conversa - vieram fugidos para o país. Dentre eles, Rolf Gelewski (1930-1988), professor da Escola de Dança, da Universidade Federal da Bahia, na época de sua fundação (década de 1970).

É dessa escola que descende a companhia alemã Thanztheater Wuppertal, dirigida pela famosa Pina Bausch (1940-2009). 

Mas a ética e estética (escolhas que implicam em um jeito de dar a ver as coisas que se percebe) de Chico Neller, além de remeter a essa linhagem, está impregnada de questões do Brasil Central, da violência da opressão, da beleza que acompanha o grotesco, da luz que acompanha a escuridão.  

Artistas com quem acho que a Cia. do Mato pode dialogar, para ampliar repertório de encenação e trocar questões em comum, é a paulistana Eliana de Santana que, em 2013, criou “Das faces do corpo”, a partir do ensaio fotográfico “Antropologia da face gloriosa”, de Arthur Omar; Sandro Borelli que dirige a Cia. Carne Agonizante com quem criou, dentre outros espetáculos, “Metamorfose” (2002), baseado em conto de Kafka, e “Produto perecível laico” (2011), inspirado no poema “A morte”, de Cruz e Souza; e Vanessa Macedo, que dirige a Cia. Fragmento, com quem criou, “Nuvens insetos” (2012) e “Versos da última estação” (2007).

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Segunda Noite

A noite de sábado começou com a aula-espetáculo “Gingado: frevo e improviso”, encenada por Antonio Meira e dirigida por Marina Abib, ambos integrantes do elenco da Antonio Nóbrega Companhia de Dança (SP).


Nóbrega estuda e mapeia há mais de 40 anos, músicas e danças festivas do nordeste, principalmente, Pernambuco, e as incorpora para a cena. Tais estudos foram pano pra manga para a aula-espetáculo “Naturalmente: teoria e jogo de uma dançabrasileira” (2009, disponível em DVD), que parece ter sido referência para a criação de Antonio Meira e Marina Abib, e que decorre de tradição de aulas-espetáculos criada por Ariano Suassuna, líder do Movimento Armorial (1970), do qual Nóbrega e muitos outros artistas como André Luiz Madureira, diretor do Balé Popular do Recife, fizeram parte. 

“Gingado: frevo e improviso” convidou dez pessoas da plateia para participar de um aquecimento brincante, para aprender passos de frevo e, depois, improvisar.


Logo em seguida o grupo convidado de dança do ventre de Três Lagoas, Expressão, apresentou “Shik Shak Shok”. A primeira coreografia da Mostra Aberta foi “Opostos”, do Ballet Isadora Duncan, que além de opor branco e preto, no figurino – uma cor na frente e outra atrás – criou oposições por meio de aproximações e afastamentos, níveis alto e nível baixo, frente e trás.


A oposição está em muitos movimentos na natureza, como os de sístole e diástole, do coração, e na própria respiração, em que a caixa torácica abre e fecha, e é um parâmetro por meio do qual a técnica de Martha Graham e Lester Horton, por exemplo, se sistematizaram. Tomar essas oposições do ambiente como ativadores de criação pode enriquecer as possibilidades de movimento para além da técnica e dos passos. O que ficou em destaque, também, foi a projeção dos movimentos no espaço, a presença cênica dos dançarinos. 

“Contos do Encantamento”, do Ballet Só Dança Auxiliadora, coreografado por Gláucia da Silva, apresentou uma composição cuja questão foram desenhos no espaço e a alternância entre conjuntos, trios, movimentos corais e canons, com a técnica do balé e estética de balés de repertório como "A Bela Adormecida" (Marius Petipá, 1890). 

 O grupo Armazém 67, de Campo Grande, apresentou “Resident Evil”, mesmo nome do filme (traduzido para o português como "Hóspede maldito"), lançado em 2004, baseado em um game homônimo. Interessante observar que o caráter maquínico das batidas da música está presente na movimentação dos dançarinos. Houve oposição entre frente e trás no posicionamento dos grupos e trios.

A Isa Yasmin Cia. de Dança apresentou “Clássicos & Véus”. A variação no uso do espaço estava em consonância com a mudança no pulso da música. O que singulariza a companhia, são os corpos singulares que a compõe. São mulheres dançando essa maneira de se mover e de pensar tão feminina. A composição desenhava linhas retas, círculos e diagonais pelo espaço.


O Grupo Seishun, da Associação Okinawa de Campo Grande, levou para a segunda noite do Festival “Gambare”, que significa “força” e “incentivo”, em japonês. A dança do Seishun combina artes marciais milenares com cultura pop japonesa, como animes. É, geralmente, apresentada nos festivais Yosaikoi Soran, uma adaptação brasileira ao “carnaval” japonês, que tem o objetivo de homenagear e divulgar a tradição japonesa no Brasil – idealizado pelo empresário Hideaki Ijima. Com gritos que acompanham movimentos expansivos, fortes e rápidos executados, simultaneamente, pelos 13 dançarinos, Seishun mostra sua força e alegria em grupo. Para saber um pouco mais sobre essa dança e o contexto em que foi criada, leia essa matéria escrita por Cristiane A. Sato.

Os bailarinos convidados Denise Rosa e Caio Baratelli, apresentaram os solos “Alegria” e “Estudos”, coreografados por Beatriz de Almeida. Ana Lucia El Daher, trouxe o solo “A espera”, criado por Neide Garrido. Os primeiros, neoclássicos – estética bastante presente no Ballet de Stuttgart, onde Beatriz trabalhou por 20 anos –, o último, dança moderna.


 O último solo, por apresentar uma narrativa e e pela maturidade cênica da dançarina que transbordou emoção, para além de passos e técnica bem executadas, serve de referência para perceber e refletir sobre o que conversamos em roda, pelas manhãs, sobre a relação entre técnica e dramaturgia. 


Tomei como exemplo um dos argumentos de Jean Georges Noverre, criador dos Balés de Ação – que decorrem dos balés de corte e se singularizam por se constituírem de narrativas e personagens – divulgada pela dramaturgista e pesquisadora Rosa Hercoles, no artigo “Epistemologias em movimento”, publicado na revista Sala Preta, em 2010: 
"Em suas Cartas sobre a dança, publicadas em 1759, [Jean Georges Noverre] argumentava enfaticamente que a dança não deveria se restringir à mera execução mecânica de passos, mas sim, tornar-se capaz de transmitir significados; para tanto, seria necessário negar sua função decorativa."

Para ampliar a percepção sobre as chamadas danças "modernas" (tanto para quem cria, encena, como para quem observa), sugiro a leitura de biografias, como a de Isadora Duncan, ou de livros de história da dança que divulguem motivações das criadoras, como é o caso do seguinte trecho do capítulo "O corpo dançante: um laboratório da percepção", escrito pela historiadora de dança Annie Suquet:

"Em 1918, Helen Moller, uma das primeiras professoras que ensinou a dança moderna, afirma categoricamente: 'O centro gerador de toda expressão física autêntica se situa na região do coração […]. Todos os movimentos que emanam de uma outra fonte são esteticamente fúteis'. A professora americana visa aqui, de modo muito explícito, a dança clássica e sua predileção pelos movimentos periféricos, com os membros desenhando de certa maneira figuras no espaço. (…) Para Martha Graham, a partir da década de 1930, a bacia se tornou o reservatório das forças motoras. Ela é, com efeito, o 'centro de gravidade', isto é, o ponto de mobilização de toda a massa corporal e de seu transporte pelo movimento. O torso é sempre, com certeza, aos olhos da coreógrafa, aquela parte do corpo 'onde a emoção se torna visível pela ação conjugada da mecânica e da química corporais - coração, pulmões, estômago, vísceras, coluna vertebral'. O movimento propriamente dito é apenas a extrapolação dessa motilidade interna (em parte reflexa) a cuja percepção se trata de conectar." (p. 518-519, disponível em: <http://www.helenakatz.pro.br/midia/helenakatz21208964713.pdf>)